Viajes en Velero, Dei�

Viajes en Velero plaza a plaza en Portugal: LAGOS



Dulce Lagos

Lagos es un dulce regalo. Lo decía en la "bitácora". Mi historia personal se mezcla en este espacio con la memoria colectiva de los portugueses; por ese mismo canal que atravesamos cada vez que entramos o salimos de la marina, cruzaron las caravelas con las que los navegantes portugueses se lanzaron a descubrir medio mundo. Henrinque o Navegante, Gil de Eanes, Vasco da Gama... Todos ellos caminaron por estas blancas y pulidas piedras. Con esas navegaciones se pudo cartografiar África, encontrar y virar el cabo de Buena Esperanza, abrir una nueva ruta comercial hacia oriente, al tiempo que también supuso un impulso definitivo para el comercio a gran escala con esclavos africanos. Lagos fue el gran mercado de esclavos de Portugal. Aquí llegaban los que sobrevivían a las duras travesías atlánticas para ser vendidos a los hacendados portugueses. Solo con el pensamiento alcanzamos a oír los rumores de esas historias terroríficas, de esas pesadillas padecidas por cientos de miles de hombres y mujeres en este mismo lugar, con una vocación hoy tan distinta.

Viajes en Velero, Lagos, Portugal
Viajes en Velero, Lagos, Portugal

Aprovechaba el paseo por Leça de Palmeira para incluir un par de sonetos de Camoes. Vuelvo aquí con él, y obviando valorar la pertinencia en este lugar de lo que a continuación incluyo, subo un fragmento de "A ilha dos Amores" de los "Lusíadas". Recomiendo su lectura en voz alta con ligero acento portugués para que funcione mejor el texto. Gallego también vale.

Es fenomenal:

Venus resuelve recompensar a los lusitanos por las desventuras padecidas.

 

Despois de ter um pouco revolvido

Na mente o largo mar que navegaram,

Os trabalhos que pelo Deus nacido

Nas Anfióneas Tebas se causaram,

Já trazia de longe no sentido,

Para prémio de quanto mal passaram,

Buscar-lhe algum deleite, algum descanso,

No Reino de cristal, líquido e manso.

 

Isto bem revolvido, determina

De ter-lhe aparelhada, lá no meio

Das águas, alguma ínsula divina,

Ornada de esmaltado e verde arreio;

Que muitas tem no reino que confina

Da primeira co’o terreno seio;

Afora os que possuï soberanas

Para dentro das portas Herculanas.

 

Ali quer que as acuáticas donzelas

Esperem os fortísimos baröes

(Tôdas as que tem título de belas,

Glória dos olhos, dor dos coraçoes)

Com danças e coreias, porque nelas

Influirá secretas afeiçoes,

Para com mais vontade trabalharem

De contentar a quem se afeiçoarem.

 

Venus encarga a su hijo Cupido que se prepare para asaetar a las Ninfas.

 

Nas frágoas imortais onde forjavam

Para as setas as pontas penetrantes,

Por lenha coraçôes ardendo estavam,

Vivas entranhas inda palpitantes.

As águas onde os ferros temperavam,

Lágrimas sâo de míseros amantes;

A viva flama, o nunca morto lume,

Desejó é só que queima e nâo consume.

 

 E para isso queria que, feridas

As filhas de Nereu no ponto fundo,

De amor dos Lusitanos incendidas

Que vem de descobrir o novo mundo,

Tôdas numa ilha juntas e subidas,

Ilha que nas entranhas do profondo

Oceano terei aparelhada,

De dons de Flora e Zéfiro adornada;

 

Ali, com mil refrescos e manjares,

Com vinhos odoríferos e rosas,

Em cristalinos paços singulares,

Formosos leitos, e elas mais formosas;

Emfim, com mil deleites nâo vulgares,

Os esperem as Ninfas amorosas,

De amor feridas, para lhé entregarem

Quanto delas os olhos cobiçarem.

 

Así sucede y las Ninfas, ya inflamadas de pasión, reciben los consejos de Venus.

 

Já todo o belo côro se aparelha

Das Nereidas, junto caminhava

Em coreias gentis, usança velha,

Para a ilha a que Vénus as guiava.

Ali a formosa Deusa lhe aconselha

O que ela fez mil vezes, quando amava.

Elas, que vâo do doce amor vencidas,

Estâo a seu conselho oferecidas.

 

La sensualidad impregna la Ilha dos Amores

 

Mil árvores estâo ao céu subindo,

Com pomos odoríferos e belos;

A laranjeira tem no fruto lindo

A côr que tinha Dafne nos cabelos.

Encosta-se no châo, que está caindo,

A cidreira coós pesos amarelos;

Os formosos limôes ali cheirando,

Estâo virgíneas têtas imitando

 

Y llegan los lusitanos. Empieza la fiesta

 

Nesta frescura tal desembarcavam

Já das naus os segundos Argonautas,

Onde pela florestas se deixavam

Andas as belas Deusas, como incautas.

Algumas, doces cítaras tocavam,

Algumas, harpas e sonoras frautas;

Outras, co’os arcos de ouro, se fingiam

Seguir os animais que nâo seguiam.

 

Assim lho aconselhara a mesma experta:

Que andassem pelos campos espalhadas;

Que, vista dos barôes a presa incerta,

Se fizessem primeiro desejadas.

Algumas, que na forma descoberta

Do belo corpo estavam confiadas,

Posta a artificiosa formosura,

Nuas lavar se deixam na água pura

 

Começam de enxergar sùbitamente,

Por entre verdes ramos, várias côres,

Côres de quem a vista julga e sente

Que nâo eram das rosas ou das flores

Mas da lâ fina e sêda diferente,

Que mais incita a fôrça dos amores,

De que se vestem as humanas rosas,

Fazendo-se por arte mais formosas

 

Dá Veloso, espantado, um grande grito:

Senhores, caça estranha, disse é esta!

Se inda dura o Gentio antigo rito,

A Deusas é sagrada esta floresta.

Mais descobrimos do que humano esprito

Desejou nunca, e bem se manifesta

Que sâo grandes as cousas e excelentes

Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

 

Sigamos estas Deusas e vejamos

Se fantásticas sâo, se verdadeiras.

Isto dito, veloces mais que gamos,

Se lançam a correr pelas ribeiras.

Fugindo as Ninfas vâo por entre os ramos,

Mas, mais industriosas que ligeiras,

Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,

Se deixam ir dos galgos alcançando.

 

 Outros, por outra parte vâo topar

Com as Deusas despidas, que se lavam;

Elas começam súbito a gritar,

Como que assalto tal nâo esperavam.

Umas, fingindo menos estimar

A vergonha que a fôrça, se lançavam

Nuas por entre o mato, aos olhos dando

O que às mâos cobiçosas vâo negando.

 

Leonardo persigue a la Ninfa Efire

Já nâo fugia a bela Ninfa tanto,

Por se dar cara ao triste que a seguia

Como por ir ouvindo o doce canto,

As namoradas mágoas que dizia.

Volvendo o rostro, já sereno e santo,

Tôda banhada em riso e alegria,

Cair se deixa aos pés do vencedor,

Que todo se desfaz en puro amor.

 

Oh, Que famintos beijos na floresta,

E que mimoso chôro que soava!

Que afagos tan suaves, que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!

O que mais passam na manhâ e na sesta,

Que Vénus com prazeres inflamava,

Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;

Mas julgue-o quem nâo pode experimentá-lo

 

Tomando-o pela mâo, o leva e guia

Para o cume dum monte alto e divimo,

No qual ûa rica fábrica se erguía,

De cristal tôda e de ouro puro e fino.

A maior parte aquí passam do dia,

Em doces jogos e em prazer contino.

Ela nos paços logra seus amores,

As outras pelas sombras, entre as flores